Tava eu meditando aqui e me veio à mente um versículo que já conheço quase decorado:
“Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que creem e são salvos.”
Hebreus 10:39 NVI
Você poderia ler esse versículo e imediatamente dizer: “Glória a Deus!” Ou: “Aleluia! Eu não sou dos que retrocedem!”
E realmente é uma declaração poderosa. Mas você já leu os versículos anteriores?
Enquanto eu estava lendo Hebreus 10:39, senti o Espírito Santo me direcionando a voltar alguns versículos. E fui ler.
“Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada. Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, recebam o que ele prometeu; pois em breve, muito em breve ‘Aquele que vem virá e não demorará. Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele’. Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que creem e são salvos.”
Hebreus 10:35-39 NVI
E então aquele versículo ganhou outro peso para mim.
Hebreus 10:39 não é apenas uma declaração bonita sobre quem somos. É a conclusão de uma palavra sobre confiança, fé e perseverança.
Antes de dizer: “Nós não somos dos que retrocedem”, o texto diz: “Não abram mão da confiança.” Depois: “Vocês precisam perseverar.” E então: “O justo viverá pela fé.”
Percebe?
Não retroceder não significa nunca se cansar. Não significa nunca diminuir o ritmo. Não significa atravessar todas as fases da vida com a mesma força. Significa continuar crendo. Significa não desistir.
A caminhada cristã é uma corrida
Mais adiante, Hebreus usa justamente a imagem de uma corrida:
“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.”
Hebreus 12:1-2 NVI
Quando falamos em correr, falamos de movimento. Mas também falamos de ritmo. Falamos de resistência. Falamos de preparo.
Ninguém começa uma corrida longa usando toda a força que possui nos primeiros metros. Quem sai em disparada pode ficar sem fôlego antes de chegar ao final.
Um corredor aprende a manter o passo, sabe quando acelerar, quando diminuir, respirar, se hidratar, descansar e continuar.
Talvez um dos nossos erros na vida cristã seja imaginar que perseverar significa viver permanentemente no máximo.
Mas o texto não diz: “Corram desesperadamente.”
Diz: “Corram com perseverança.”
E perseverança não é sofrimento. Perseverança não é viver no limite.
Perseverança é não desistir.
Desacelerar não é retroceder
Existem fases em que conseguimos fazer muitas coisas: servimos, oramos, estudamos, ajudamos, produzimos, avançamos. E existem fases em que precisamos diminuir o passo. Isso não significa necessariamente que estamos retrocedendo. Precisamos aprender a não confundir ritmo com direção.
Você pode andar mais devagar e continuar indo para frente. Pode parar um pouco para recuperar o fôlego e continuar na corrida. Pode reorganizar sua vida e continuar no caminho. Pode descansar. Há uma diferença enorme entre descansar no caminho e abandonar o caminho.
O problema não é diminuir o ritmo. O problema é desistir da direção.
O descanso nunca foi inimigo da caminhada
O descanso aparece desde a criação. Deus estabeleceu um princípio de descanso desde o princípio. Não porque Deus estivesse exausto como nós ficamos, mas porque o descanso fazia parte da ordem que Ele estabeleceu. Jesus também se retirava. Também se afastava das multidões. Também chamou os discípulos para descansarem depois de períodos intensos de ministério.
Então por que transformamos exaustão em sinal de espiritualidade?
Descansar não é necessariamente fraqueza. Às vezes, insistir em continuar no mesmo ritmo quando já estamos esgotados é apenas ignorar nossos próprios limites. O descanso pode fazer parte da perseverança. Porque quem descansa pode recuperar as forças para continuar. O que não podemos fazer é transformar uma pausa em desistência.
Nem tudo o que atrapalha é pecado
Em Hebreus diz: “Livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve.” O texto faz uma distinção. Existe aquilo que atrapalha. E existe o pecado. Portanto, nem tudo o que pesa sobre nós é necessariamente pecado.
Às vezes são responsabilidades demais. Compromissos demais. Expectativas demais. Comparações. Culpa. A necessidade de atender todo mundo. A necessidade de provar alguma coisa.
E, algumas vezes, até coisas boas podem se tornar peso.
Podemos servir tanto. Trabalhar tanto. Fazer tanto pela obra de Deus. Assumir tantas responsabilidades. Tentar resolver tantas coisas. Que aquilo que deveria nascer da nossa comunhão com Jesus começa a consumir justamente o tempo, a força e a atenção que deveriam nos aproximar dEle.
E aí surge um perigo muito sutil:
podemos estar ocupados com as coisas de Deus e, ainda assim, perder de vista o próprio Deus.
Servir não é o problema. Trabalhar na obra não é o problema. O problema começa quando aquilo que fazemos para Jesus ocupa o lugar de estar com Jesus. É possível continuar correndo e perder o foco da corrida.
Por isso Hebreus não diz apenas: “Corram.”
Primeiro diz: “Livremo-nos de tudo o que nos atrapalha.”
Depois: “Corramos com perseverança.”
E então nos mostra para onde olhar: “Tendo os olhos fitos em Jesus.”
Talvez, em alguns momentos, perseverar também exija colocar algumas coisas no chão. Rever responsabilidades. Diminuir compromissos. Reconhecer limites. E perguntar novamente: “Senhor, o que realmente foi o Senhor que me pediu para carregar?”
Porque um corredor não leva na mochila tudo aquilo que consegue carregar. Ele leva aquilo de que precisa para completar a corrida.
E o pecado que nos envolve?
Mas no livro aos Hebreus também fala sobre outra coisa: “...e do pecado que nos envolve.” O pecado também interfere na corrida. Quando conhecemos Jesus, entendemos o que Ele fez na cruz por nós e experimentamos uma vida caminhando com Ele, o pecado não é simplesmente “quebrar uma regra”.
Sabemos contra quem pecamos. Sabemos o amor que recebemos. Sabemos o preço que foi pago. E então aparece a vergonha. Às vezes, a pessoa não deixa de olhar para Jesus porque resolveu amar mais o pecado. Ela deixa de olhar para Jesus porque sente vergonha de olhar para Ele depois que pecou.
A oração muda. A intimidade diminui. A pessoa começa a se afastar. E quanto mais se afasta, mais difícil parece voltar.
A vergonha diz: “Se esconda.”
E o inimigo sabe usar muito bem esse sentimento. Primeiro vem a queda. Depois a vergonha. Depois o afastamento. E então surge uma mentira perigosa:
“Você precisa mudar sua vida antes de voltar para Jesus.”
Quantas pessoas ficam longe de Deus por acreditar nisso?
Pensam: “Quando eu parar com isso, eu volto.” “Quando eu estiver melhor, eu volto a orar.” “Quando eu conseguir organizar minha vida, eu volto para a igreja.” “Quando eu estiver vivendo direito novamente, eu volto para Jesus.”
Mas existe um problema nessa lógica.
Se você conseguisse transformar a si mesmo antes de voltar para Cristo, para que precisaria de Cristo?
Você não precisa se consertar para voltar
É claro que a graça não é licença para viver deliberadamente no pecado. Existe arrependimento. Existe abandono do pecado. Existe mudança de direção. Mas arrependimento não significa ficar longe de Jesus até conseguir resolver tudo. É justamente o contrário. Arrependimento nos faz voltar para Ele.
A vergonha diz: “Fique longe até melhorar.”
A graça diz: “Volte.”
Volte arrependido. Volte quebrantado. Volte reconhecendo onde errou. Volte mesmo sem saber como colocar todas as coisas no lugar.
Não é: “Mude sua vida e depois venha para Jesus.”
É: “Volte para Jesus e permita que Ele transforme sua vida.”
A graça não diz que o pecado não importa. A cruz prova exatamente o contrário. O pecado é tão sério que Cristo morreu por ele. Mas a mesma cruz que revela a gravidade do pecado também revela até onde foi o amor de Deus para nos salvar. Por isso, depois de falar sobre aquilo que nos atrapalha e sobre o pecado que nos envolve, na carta aos Hebreus aponta novamente para Jesus:
“Tendo os olhos fitos em Jesus.”
Pecou? Olhe para Jesus.
Tropeçou? Olhe para Jesus.
Sentiu vergonha? Olhe para Jesus.
Arrependa-se. Confesse. Levante. E continue.
Uma queda não precisa se transformar em retrocesso.
O segredo está em onde colocamos os olhos
O livro de Hebreus poderia simplesmente ter dito: “Continuem correndo.” Mas não disse apenas isso. Disse: “Tendo os olhos fitos em Jesus.” Porque não basta continuar em movimento. Precisamos saber para onde estamos olhando. Quando olhamos demais para os outros, começamos a comparar ritmos.
“Fulano faz mais.” “Ciclano está mais avançado.” “Eu deveria estar fazendo aquilo.” “Por que aquela pessoa consegue e eu não?”
Mas talvez você nem esteja vivendo a mesma parte da corrida. Cada pessoa possui uma história. Uma estação. Responsabilidades diferentes. Processos diferentes. O texto não manda olhar para o corredor ao lado. Manda olhar para Jesus.
E existe outra coisa ainda mais perigosa: podemos trabalhar tanto para Jesus que paramos de olhar para Ele. A obra fica pesada. O ministério fica pesado. A caminhada fica pesada. Tudo vira obrigação. Tudo vira esforço. Tudo vira cobrança. Até que um dia percebemos que estamos correndo, mas quase não sabemos mais por quê.
Volte os olhos para Jesus.
A obra é dEle. A Igreja é dEle. O chamado é dEle. A força vem dEle. Nós não somos salvadores da obra de Deus. Somos pessoas que foram chamadas para caminhar com Ele.
Perseverança é não desistir
Depois de tudo isso, talvez possamos resumir perseverança de uma maneira muito simples:
Perseverança é não desistir.
Não significa nunca parar. Não significa nunca tropeçar. Não significa nunca cansar. Não significa nunca precisar reorganizar a vida. Significa não abandonar Cristo. É descansar e depois continuar. É diminuir o passo sem mudar de direção. É cair e voltar os olhos para Jesus. É perceber que carregou peso demais e colocar algumas coisas no chão. É reconhecer o pecado, se arrepender e voltar. É continuar.
Por isso, aqui no livro de Hebreus diz: “Corramos com perseverança”, eu entendo quase como um chamado:
Não abandonem a corrida.
Então, como não retroceder?
Talvez você tenha chegado até aqui esperando uma fórmula complicada. Mas no livro de Hebreus já nos deu a resposta. Não abra mão da confiança. Persevere. Livre-se daquilo que atrapalha. Abandone o pecado. E mantenha os olhos fixos em Jesus.
Se estiver cansado, descanse. Se estiver carregando coisas demais, coloque algumas no chão. Se diminuiu o ritmo, ajuste o passo. Se tropeçou, levante. Se pecou, arrependa-se e volte. Se a vergonha está fazendo você se esconder, lembre-se da cruz. Se está fazendo tantas coisas para Deus que já não consegue mais estar com Deus, pare e volte ao centro.
Jesus.
Porque não somos dos que retrocedem. Somos dos que creem. Dos que permanecem. Dos que caem e levantam. Dos que descansam e continuam. Dos que aprendem a deixar pesos para trás. Dos que não colocam a confiança na própria força. E dos que continuam correndo com perseverança, com os olhos fixos em Jesus, o autor e consumador da nossa fé. Talvez hoje você não consiga correr como antes. Tudo bem. Caminhe. Se não consegue caminhar rápido, vá devagar. Se precisa recuperar o fôlego, descanse. Mas não volte para trás. E, principalmente, não tire os olhos de Jesus.
Porque desacelerar não é retroceder.
Descansar não é desistir.
Tropeçar não significa abandonar a corrida.
E uma queda não precisa ser o fim da caminhada. Persevere.
Não porque você é forte o tempo todo. Mas porque sabe para onde olhar.
Olhe para Jesus e continue.
Talvez hoje seja o seu dia de voltar
Se enquanto você lia este texto percebeu que se afastou de Jesus, eu não quero terminar dizendo que você precisa primeiro organizar sua vida. Eu quero lembrar justamente o contrário: volte.
Talvez você esteja há muito tempo longe. Talvez tenha acontecido ontem. Talvez ninguém saiba. Talvez você continue frequentando uma igreja, servindo e fazendo muitas coisas, mas no seu coração saiba que deixou de olhar para Jesus há algum tempo. Então volte.
Não espere sentir que merece. Não espere conseguir vencer tudo sozinho. Não espere se tornar a pessoa que acredita que deveria ser para só então procurar Jesus.
Venha como você está e permita que Ele comece, ou recomece, essa caminhada com você.
Se você deseja entregar sua vida a Jesus, ou se percebe que precisa voltar para Ele, converse com Deus agora. Não existe uma oração mágica. Não são palavras decoradas que salvam. É um coração que crê, se arrepende e se rende a Cristo.
Se essas palavras representam aquilo que você deseja dizer a Deus, ore comigo:
“Jesus, hoje eu volto os meus olhos para Ti.
Reconheço que preciso de Ti e que sozinho eu não consigo transformar minha vida.
Eu creio no que o Senhor fez por mim na cruz e reconheço os meus pecados.
Perdoa-me e muda a direção da minha vida.
Eu entrego a Ti quem eu sou, a minha história, as minhas escolhas, os meus erros e o meu futuro.
Ensina-me a caminhar contigo, a permanecer quando for difícil e a não desistir quando eu tropeçar.
Que meus olhos permaneçam fixos em Ti.
Se eu cair, ensina-me a voltar.
Se eu me cansar, ensina-me a descansar sem abandonar o caminho.
Se alguma coisa estiver me afastando de Ti, mostra-me e ajuda-me a deixá-la para trás.
Jesus, eu entrego a minha vida a Ti.
Conduz os meus passos a partir de hoje.
Amém.”
E não pare somente nessa oração. A caminhada cristã não foi feita para ser vivida sozinho.
Procure uma igreja cristã perto de você.
Uma comunidade onde Jesus seja o centro, onde a Bíblia seja ensinada com seriedade e onde você possa aprender, ser cuidado, crescer na fé e caminhar ao lado de outras pessoas.
Talvez entrar pela porta de uma igreja depois de muito tempo também dê vergonha. Vá mesmo assim. Talvez você pense que precisa estar “melhor” primeiro. Não precisa. Talvez não saiba nem explicar direito o que aconteceu. Tudo bem. Comece dizendo: “Eu quero voltar para Jesus e preciso de ajuda para caminhar com Ele.”
Você não precisa conhecer toda a Bíblia para começar. Não precisa saber fazer uma oração bonita. Não precisa ter a vida resolvida. Precisa apenas dar o próximo passo. Depois outro. E outro. Com perseverança. Com os olhos fixos em Jesus. Porque talvez a sua caminhada tenha desacelerado. Talvez você tenha tropeçado. Talvez tenha parado por algum tempo.
Mas enquanto houver um coração disposto a voltar para Cristo, a história não precisa terminar no lugar onde você caiu. Levante os olhos. Jesus continua sendo o caminho.
Volte para Ele e continue a corrida.
